Muitos alunos me perguntam se eu uso doxapram. A resposta honesta é que não, quase nunca. Na verdade, confesso que não me lembro da última vez que usei essa medicação na minha rotina clínica. E essa confissão, inevitavelmente, vem acompanhada de um “por quê?”.
O doxapram é um analéptico respiratório. Ele age estimulando o centro respiratório na medula e tornando os quimiorreceptores periféricos mais sensíveis ao CO₂. Em teoria, deveria ser útil sempre que um paciente estivesse em depressão respiratória. Na prática, a maioria dos cenários clínicos em que essa depressão aparece tem soluções muito mais diretas, mais seguras e mais efetivas.
Paciente sedado com algum grau de hipoventilação? A gente suplementa oxigênio, desobstrui a via aérea, posiciona melhor o animal e, se necessário, parte para o manejo definitivo com máscara laríngea, dispositivo supraglótico ou intubação orotraqueal. Paciente anestesiado? Nem se fala. Via aérea controlada, ventilação assistida ou controlada, fração inspirada de oxigênio aumentada. Nesse contexto, o doxapram não acrescenta nada relevante.
Ocorre que existe um subgrupo onde a pergunta faz mais sentido: os neonatos que nascem por cesariana. Assim que o filhote é retirado do útero, ele pode chegar com algum grau de depressão respiratória e isso depende, entre outros fatores, do protocolo anestésico empregado na mãe. Na minha rotina, com o tipo de anestesia que faço para cesariana, é raro ter neonato com depressão expressiva. Eles nascem vocalizando, com tônus muscular razoável e com os critérios do escore de Apgar relativamente preservados. Ainda assim, entendo por que essa pergunta sobre esse fármaco é recorrente nas pós-graduações e nas redes sociais. Por isso decidi buscar na literatura um trabalho recente sobre o tema. Encontrei um estudo de 2023, publicado em um bom periódico e que merece atenção.
O estudo
O título já delimita bem o escopo: os efeitos do doxapram na sobrevivência e no escore de Apgar de neonatos caninos nascidos por cesariana eletiva. Atenção ao “eletiva” — não estamos falando de emergência, de distocia, de sofrimento fetal evidente. O recorte é específico, e isso importa na hora de interpretar os resultados.
O desenho foi randomizado, controlado e cego, com 171 neonatos provenientes de 45 cesarianas em 43 cadelas diferentes, conduzido ao longo de pouco mais de um ano em uma clínica australiana com grande volume de cesarianas. Para os padrões da medicina veterinária, esse é um N considerável. O protocolo anestésico utilizado foi indução com alfaxalona por via intravenosa (um indutor que, até agora – abril de 2026 – não está disponível no Brasil) e manutenção com isoflurano, sem medicação pré-anestésica.
Os filhotes foram estratificados por peso ao nascer e randomizados para receber, por via intralingual, ou doxapram (aproximadamente 10 mg/kg) ou solução salina no mesmo volume. A via intralingual me gerou uma certa estranheza de início, nunca havia visto descrita dessa forma, embora os autores citem outros trabalhos que já utilizaram essa via e comentem que a aprovação da medicação no país abrange tanto a via intravenosa quanto a sublingual. O acesso venoso em neonatos é realmente complicado, então a lógica faz sentido.
O cegamento foi bem conduzido: o mesmo investigador administrava o doxapram ou a salina sem saber o que estava na seringa, já que o doxapram é uma solução incolor, praticamente indistinguível visualmente da salina.
Os dois desfechos primários foram a mortalidade em sete dias e o tempo para atingir o escore máximo de Apgar.
O escore de Apgar: uma ferramenta que precisa entrar na rotina
Antes de falar dos resultados, vale um parêntese sobre o escore de Apgar, porque ele tem um papel central nesse trabalho e ainda é subutilizado nas nossas cesarianas. O escore foi descrito por Virginia Apgar, médica pediatra e anestesiologista, ainda nos anos 1950, e é um dos sistemas mais consolidados na medicina humana para avaliação rápida da vitalidade do neonato. Na veterinária, seu uso vem crescendo mais recentemente. O escore avalia cinco categorias: frequência cardíaca, esforço respiratório (frequência e vocalização), reflexo de irritabilidade (resposta à compressão do membro), motilidade espontânea e coloração de mucosas. Cada categoria pontua de 0 a 2, totalizando de 0 a 10 pontos. Quanto mais alto, melhor. Aplicar o escore de Apgar assim que o neonato é retirado do útero deveria ser rotina em qualquer cesariana. Para os alunos do GDAV e do GDETIV, isso ficou ainda mais simples: o escore está disponível diretamente no app do GDVet, com o cálculo guiado em tempo real durante o procedimento. Se você ainda não é membro, pode acessar as informações em backup.gdvet.com.br.
O que os resultados mostraram
Em sete dias, morreram 5 filhotes do grupo salina e 7 do grupo doxapram. Antes de qualquer conclusão precipitada: a análise estatística não encontrou evidência de associação entre o uso do doxapam e maior mortalidade (p = 0,634). A diferença de dois filhotes, em uma distribuição desse tipo, é muito provavelmente aleatória. Esse é um ponto que vale sublinhar sempre que lemos artigos: o que a gente vê nos números brutos não é, por si só, evidência de nada.
A maior parte dos óbitos ocorreu em braquicefálicos, o que não surpreende quem lida com essa população. Entre os filhotes que morreram no grupo doxapram, houve casos de anasarca e um filhote eutanasiado pela presença de fenda palatina. Nenhuma dessas causas tem relação plausível com o fármaco administrado.
Em relação ao tempo para atingir o escore de Apgar máximo, o gráfico é bastante elucidativo: em 5 minutos após o nascimento, a imensa maioria dos animais já apresentava escore próximo de 10, independentemente do grupo. Em 10 e 20 minutos, a distribuição estava praticamente no teto. E quando os autores compararam os grupos doxapram e salina nos braquicefálicos e nos não braquicefálicos separadamente, a diferença foi praticamente nenhuma.
O achado mais importante do estudo, para mim, não é sobre o doxapram, mas sim sobre o escore de Apgar. A cada ponto a mais no escore de Apgar ao nascimento, a chance de mortalidade em sete dias reduzia em torno de 51%. Isso é estatisticamente significativo e clinicamente muito relevante. O estado em que o filhote nasce prediz a evolução dele. Quanto melhor o escore ao nascer, menor o risco. Isso é um argumento direto para que a gente priorize dois fatores: um protocolo anestésico que minimize a depressão nos neonatos e a aplicação sistemática do escore de Apgar assim que o filhote é retirado.
O que tirar disso
O doxapram não mostrou benefício em mortalidade nem em velocidade de recuperação do escore de Apgar em neonatos de cesariana eletiva canina. O estudo tem limitações, como amostra por conveniência sem cálculo amostral formal, uma possível interferência do estímulo doloroso da injeção intralingual de salina no grupo controle, e resultados que não são necessariamente generalizáveis para cesarianas de emergência ou situações de sofrimento fetal. Ratifico: são limitações que o próprio estudo reconhece, o que já é um ponto positivo.
A conclusão dos autores é direta: não há evidência suficiente de que o doxapram intralingual melhore a viabilidade dos neonatos ou reduza a mortalidade em sete dias em cesarianas eletivas. Para mim, o trabalho reforça uma convicção que já trago da prática: o melhor que se pode fazer pelo neonato começa antes de ele nascer. Começa na escolha do protocolo anestésico da mãe, no uso, quando possível de técnicas de anestesia locorregional e aqui afirmo que tenho um viés, porque sou gosto muito da epidural para cesariana, e na atenção ao tempo cirúrgico entre a indução e a retirada dos filhotes.
Se você quiser aprender mais sobre anestesia e reanimação de neonatos, vem comigo pro GDAV. Clica aqui agora mesmo para conhecer o curso e comunidade e se juntar a centenas de membros do Brasil e até de outros países.
