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GDVet — Intoxicação por Metilxantinas
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Protocolos de Consulta Rápida
Intoxicação por Metilxantinas
chocolate · café · chá · guaraná · cola — Cão e Gato
Agentes: teobromina, cafeína e teofilina. Maior incidência em Natal e Páscoa.
Toxicologia Cão / Gato Emergência
Farmacologia
Mecanismo, farmacocinética e concentrações
Inibição competitiva de receptores de adenosina — estimulação do SNC, diurese e taquicardia.
Alteração do transporte de cálcio intracelular — aumento de Ca²⁺ livre com maior contratilidade muscular esquelética e cardíaca.
Inibição competitiva da fosfodiesterase nucleotídio-cíclica — ↑AMPc intracelular → ativação de proteinoquinase → inibição da quinase da cadeia leve da miosina → contração da musculatura lisa e efeito simpatomimético.
Absorção: rápida no TGI. Pico plasmático — cafeína: 30–60 min; teobromina: ~2 h.
Biotransformação: hepática (reações de conjugação) com circulação êntero-hepática.
Meia-vida em cães: ~17 h para teobromina — eliminação lenta explica a maior sensibilidade da espécie em relação a humanos e outros animais.
Atravessa a placenta e é excretada pelo leite materno — risco para fetos e neonatos.
Por tipo de chocolate (metilxantinas totais, mg/g)
Fonte
Concentração
Cacau em pó
28,5 mg/g
Chocolate amargo / culinária
15,5 mg/g
Casca de grão de cacau
9,0 mg/g
Chocolate meio amargo / escuro
5,3–5,6 mg/g
Chocolate ao leite
2,3 mg/g
Chocolate branco
~0,04 mg/g
Outras fontes (teor de cafeína aproximado)
Fonte
Cafeína (% peso seco)
Guaraná (Paullinia cupana)
3–5%
Café (Coffea arabica)
1–2,5%
Noz-de-cola (Cola nitida)
1,5–2,5%
Erva-mate (Ilex paraguariensis)
1–2,2%
Chá-preto (Camellia sinensis)
variável
Gordura e Sinais GI
Vômito, diarreia e distensão abdominal leves são frequentemente causados pelo alto teor de gordura do chocolate — não pelas metilxantinas. O mesmo mecanismo lipídico explica o risco de pancreatite (24–72 h após ingestão). O chocolate branco, apesar de quase isento de metilxantinas, pode causar sinais GI clinicamente relevantes pela gordura.
Metilxantinas totais — Cão (mg/kg)
Dose ingerida
Efeitos esperados
20 mg/kg
Sinais GI leves — vômito, diarreia.
40–50 mg/kg
Sinais cardiovasculares graves.
≥ 60 mg/kg
Convulsões.
100–200 mg/kg
DL50 — potencialmente letal.
DL50 oral por composto
Composto
Cão
Gato
Cafeína
140 mg/kg
var. 110–200
80–150 mg/kg
Teobromina
250–500 mg/kg
var. 100–250
200 mg/kg
Diagnóstico
Histórico e sinais clínicos
Confirmar fonte (tipo de chocolate, café, guaraná etc.), quantidade ingerida e tempo decorrido desde a exposição.
Início dos sinais: em geral 4–12 h após a ingestão, podendo surgir antes conforme o pico plasmático de cada composto.
Duração: casos graves podem persistir até 72 h dada a meia-vida longa da teobromina em cães.
Gastrintestinais
Vômito Hematêmese Diarreia Distensão abdominal Poliúria
Presentes em ~50% dos casos sintomáticos. Sinais leves frequentemente causados pela gordura do chocolate, não pelas metilxantinas. Pancreatite: complicação possível 24–72 h após ingestão.
Sistema Nervoso Central
Hiperatividade Vocalização Ataxia Tremores musculares Rigidez muscular Convulsões
Cardiovascular
Taquicardia Arritmias Hipertensão Bradiarritmia (rara)
Taquicardia presente em todos os casos com sinais clínicos. Hipertensão documentada em minoria dos casos.
Respiratório
Taquipneia Cianose
Outros
Hipertermia Hipocalemia Pancreatite Morte (casos graves)
Hipocalemia é achado raro, de fase tardia. Pancreatite secundária associada ao alto teor lipídico do chocolate.
Tratamento
Descontaminação, suporte e controle de sinais
1
Indução de êmese — indicada se ingestão há < 1 h, paciente alerta, sem risco de convulsões e substância não corrosiva. Cão: morfina — 0,1–0,3 mg/kg SC
Gato: xilazina — 0,44 mg/kg IM
2
Lavagem gástrica via sonda nasogástrica — o chocolate pode formar massa compacta no estômago; considerar mesmo após êmese em ingestões volumosas.
3
Carvão ativado — 1–4 g/kg VO. Reservar para ingestões de grande volume. Evitar em pacientes desidratados pelo risco de hipernatremia.
4
Fluidoterapia IV — reidratação e manutenção, ou reposição volêmica em pacientes hipovolêmicos.
5
Monitoramento contínuo — ECG, eletrólitos (atenção à hipocalemia), temperatura e pressão arterial.
6
Controle de hipertermia — resfriamento ativo se temperatura elevada por hiperatividade muscular intensa.
Maropitant 1ª escolha
1 mg/kg SC ou IV lento — a cada 24 h.
Ondansetrona Alternativa
0,5 mg/kg IV lento — a cada 8 h.
Propranolol Taquiarritmias
0,02–0,06 mg/kg IV lento. Atenção: pode retardar a excreção das metilxantinas — usar com cautela e monitoramento contínuo.
Esmolol Taquiarritmias
0,05–0,1 mg/kg IV lento em bolus, seguido de 0,01–0,2 mg/kg/min IVC.
Atropina Bradiarritmias
0,01–0,02 mg/kg IV ou IM.
Lidocaína TV refratária
1–2 mg/kg IV bolus, seguido de 25–80 mcg/kg/min IVC.
Diazepam Tremores / Crises leves
0,5–2 mg/kg IV lento.
Fenobarbital Crises graves / refratárias
Barbitúrico de escolha nas convulsões refratárias. Seguir protocolo específico de status epilepticus.
Prognóstico
Favorável com tratamento agressivo e adequado. Óbito é raro — geralmente associado a arritmias cardíacas ou insuficiência respiratória. Sinais podem persistir até 72 h em casos graves pela meia-vida longa da teobromina.
Referências
Fontes utilizadas neste protocolo
SPINOSA, Helenice de Sousa; GÓRNIAK, Silvana Lima; BERNARDI, Marilene Machado. Toxicologia Aplicada à Medicina Veterinária. 2. ed. São Paulo: Manole, 2017. cap. Chocolate, Café e Chá, p. 551–554.
NOBLE, Peter-John M. et al. Heightened risk of canine chocolate exposure at Christmas and Easter. Veterinary Record, v. 181, n. 26, p. 684, 2017.
RABELO, Rodrigo Cardoso. Emergência de Pequenos Animais: Condutas Clínicas e Cirúrgicas. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012. cap. Intoxicações.
WEINGART, Christiane; HARTMANN, Alisa; KOHN, Barbara. Chocolate ingestion in dogs: 156 events (2015–2019). Journal of Small Animal Practice, v. 62, n. 11, p. 979–983, 2021.
MSD VETERINARY MANUAL. Chocolate Toxicosis in Animals. Merck & Co., 2024. Disponível em: msdvetmanual.com/toxicology/food-hazards/chocolate-toxicosis-in-animals