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Fluidoterapia em Cães e Gatos — Resumo AAHA 2024 | GDVet
Material Educacional · Medicina Veterinária

Fluidoterapia em Cães e Gatos

Resumo dos pontos-chave das Diretrizes AAHA 2024 para uso clínico e prática profissional

J Am Anim Hosp Assoc 2024; 60:131–163  ·  Pardo, Spencer et al.

01

Princípios Gerais da Fluidoterapia

Por que fluidos precisam ser tratados como medicamentos

Pontos Essenciais

Fluidos são fármacos e devem ser prescritos como tal — com dose, via, velocidade e objetivos terapêuticos definidos.
Cada compartimento pode exigir uma prescrição diferente, adaptada às necessidades individuais do paciente.
Taxa arbitrária ("2x manutenção para todos") pode causar morbidade, mortalidade e não atinge os objetivos terapêuticos.
💡 A fluidoterapia meta-dirigida exige: reconhecer o déficit em cada compartimento → escolher o fluido e a via adequados → calcular dose e velocidade → monitorar a resposta e complicações.
1

Reconhecer o déficit

Identificar qual compartimento está comprometido: intravascular, intersticial ou intracelular.

2

Selecionar fluido e via

O tipo de fluido e a via (IV, IO, SC, enteral) dependem da gravidade do déficit.

3

Calcular dose e velocidade

Plano dividido em: Ressuscitação + Reidratação + Manutenção.

4

Monitorar continuamente

Ajustar a prescrição conforme resposta clínica e as perdas em andamento.

Desidratação
Perda de fluidos maior que a ingestão. Afeta principalmente o espaço intersticial.
Hipovolemia
Volume diminuído no espaço intravascular. Reduz perfusão tecidual. Requer atenção imediata.
Euvolemia
Distribuição e balanço normais da água corporal total.
Sobrecarga de Fluidos
Espectro de hipervolemia até edema e efusões cavitárias potencialmente fatais.
02

Compartimentos Corporais & Distribuição

Como a água se distribui e como cada fluido age no organismo

67%

Intracelular

Maior compartimento. Regulado pela concentração de sódio extracelular.

25%

Intersticial

Avaliado pelo turgor cutâneo, mucosas e parâmetros de hidratação.

8%

Vascular

Menor, mas crítico para perfusão. Avaliado por FC, TPC, pulso e PA.

🧪

Fluido Isotônico IV

Em ~45 min: 25% permanece intravascular e 75% migra para o interstício. Grandes volumes são necessários para ressuscitação.

⬆️

Fluido Hipertônico IV

Atrai água do interstício e intracelular para o intravascular. Ideal para ressuscitação rápida, mas requer hidratação adequada nos outros compartimentos.

⬇️

Fluido Hipotônico IV

Move água do extracelular para o intracelular. Indicado para tratar déficit de água livre (ex.: hipernatremia crônica).

ℹ️ O sódio é o principal cátion extracelular e o maior responsável pela tonicidade. Na ausência de natremia, escolha sempre um cristaloide isotônico tamponado.
⚠️ Avalie e trate sempre na ordem: 1º intravascular → 2º intersticial → 3º intracelular. O extracelular deve ser corrigido antes de abordar déficits intracelulares.
03

Tipos de Fluidos e Vias de Administração

Cristaloides, coloides e quando usar cada um

Pontos Essenciais

Use fluidos de reposição (cristaloides isotônicos) para hipovolemia e desidratação, com estratégias distintas para cada condição.
Use fluidos de manutenção (cristaloides hipotônicos) para necessidades diárias em pacientes que não ingerem fluidos suficientes.
Cristaloides isotônicos a longo prazo no lugar de manutenção causam hipocalemia e desequilíbrios eletrolíticos.
Tipo de FluidoClassificaçãoUso PrincipalExemplos
ReposiçãoCristaloide isotônicoHipovolemia e desidrataçãoRinger Lactato, Plasma-Lyte, Normosol-R
ManutençãoCristaloide hipotônicoNecessidades diárias de fluidosNormosol-M, NaCl 0,45%
HipertônicoCristaloide/ColoideRessuscitação rápida, edema cerebralNaCl 7,2%, Manitol
ColoideNatural ou SintéticoHipoalbuminemia grave, suporte oncóticoPlasma, Albumina canina, HES (controverso)

🩺 Via IV / IO

Preferida em déficits graves, perdas agudas, hipoperfusão e intolerância à via oral. A via IO é ponte até acesso venoso quando IV não é possível.

💧 Via SC

Ambulatorial ou como complemento noturno. Dose: 20–30 mL/kg/dose, 1–2x/dia. Evitar NaCl 0,9% SC (pH baixo, doloroso). Usar Ringer lactato ou Plasma-Lyte.

Via Enteral — Subvalorizada: Sempre que possível, priorizá-la. Sondas nasogástrica, nasoesofágica ou esofagostomia auxiliam pacientes anorexicos. Dieta úmida auxilia a hidratação.
04

Hipovolemia e Desidratação

Condições relacionadas, mas com abordagens distintas

🚨 Hipovolemia

Déficit no espaço intravascular. Requer atenção imediata.

Sinais: Taquicardia · TPC prolongado · Mucosas pálidas · Pulso fraco · Hipotensão · Extremidades frias · Torpor

💧 Desidratação

Déficit no espaço intersticial. Ingestão insuficiente ou perdas aumentadas.

Sinais: Turgor cutâneo reduzido · Mucosas secas · Olhos encovados · Urina concentrada

🐕

Bolus — Cão (Hipovolemia)

15–20 mL/kg

Cristaloide isotônico tamponado em 15–30 min

🐈

Bolus — Gato (Hipovolemia)

5–10 mL/kg

Cristaloide isotônico em 15–30 min. Gatos são muito mais sensíveis à sobrecarga.

ℹ️ Reidratação (Desidratação): Calcular o déficit e repor em 12–24 horas. Nunca em bolus — fluidos precisam migrar lentamente para o interstício.

📐 Fórmulas Essenciais

Déficit de Fluido (L) = Peso (kg) × % Desidratação
Déficit de Água Livre (L) = [(Na paciente / Na desejado) − 1] × (0,6 × Peso kg)
Taxa Total = Ressuscitação + Reidratação + Manutenção
⚠️ Hipovolemia + Desidratação simultâneas: Tratar primeiro a hipovolemia (bolus IV rápido), depois iniciar a reidratação lenta em 12–24 h.
% DesidrataçãoSinais ClínicosGravidade
< 5%Ausentes ou imperceptíveisLeve
5–6%Turgor cutâneo levemente reduzidoLeve-Moderada
7–9%Turgor reduzido, mucosas secas, olhos encovadosModerada
10–12%Taquicardia, pulso fraco, TPC prolongadoGrave
≥ 12%Choque, colapso iminenteCrítica
05

Fluidoterapia e Anestesia

Cuidados especiais durante procedimentos cirúrgicos

Pontos Essenciais

A maioria dos animais saudáveis submetidos a cirurgia eletiva não precisa de fluidos no pós-operatório. Retorno precoce à alimentação é preferível.
Manter PAM mínima de 60 mmHg para garantir perfusão tecidual adequada.
Em doença renal (IRIS 3 ou 4), não corrigir hipotensão com altas taxas de fluidos.
🐕

Taxa Anestésica — Cão

5 mL/kg/h

Cristaloide balanceado isotônico

🐈

Taxa Anestésica — Gato

3–5 mL/kg/h

Cristaloide balanceado isotônico

🚫 Se o volume anestésico total ultrapassar 20 mL/kg em um único episódio, reavalie imediatamente as taxas e o status volêmico.

🩺 Hipotensão durante anestesia — Algoritmo

1

Reduzir o vaporizador

Pequenas reduções no anestésico inalatório podem normalizar a pressão arterial.

2

Monitorar FC e temperatura

Bradicardia → anticolinérgicos. Hipotermia → aquecimento ativo.

3

Bolus de cristaloide

5 mL/kg em 10 min. Se resolver → retornar à taxa inicial (3–5 mL/kg/h).

4

Vasopressores / Inotrópicos se refratário

Efedrina 0,05–0,2 mg/kg · Norepinefrina CRI · Dobutamina CRI · Epinefrina CRI.

06

Distúrbios Eletrolíticos e Situações Especiais

Potássio, sódio, TCE, hipoglicemia e outros cenários críticos

Hipocalemia

Suplementar KCl na fluidoterapia IV. Taxa máxima: 0,5 mEq/kg/h. NUNCA bolus com KCl. Homogeneizar bem o frasco antes de infundir.

Hiponatremia

Correção máxima: 0,5 mEq/L/h ou 10–12 mEq/L/dia. Correção rápida crônica causa síndrome de desmielinização osmótica.

Hipernatremia

Calcular déficit de água livre. Fluidos hipotônicos. Queda máxima: 0,5 mEq/L/h. Correção rápida em casos crônicos causa edema cerebral.

Trauma Cranioencefálico

Meta: PAM ≥ 80 mmHg. Osmoterapia com Manitol (0,5–1 g/kg IV em 15 min) ou NaCl 7,2% (1–6 mL/kg IV em 15 min).

Gato Hipotérmico em Choque

Ressuscitação agressiva causa edema pulmonar e efusão. Usar bolus conservadores de 5 mL/kg com aquecimento ativo simultâneo.

Hipoglicemia

Bolus: 0,5–1 mL/kg de Dextrose 50% diluída 1:2–1:4 em 2–5 min. Seguido de CRI de Dextrose 1,25–5%. Concentrações >5% em veia central.

🚫 Regra de ouro — Sódio: Distúrbios crônicos (>24–48 h) devem ser corrigidos lentamente. A correção rápida provoca deslocamentos de fluido no SNC potencialmente fatais.

Suplementação de Potássio (KCl)

Guidelines for Potassium Supplementation in Fluids — AAHA 2024, Table 11

Concentrações das Soluções de KCl

KCl 10%
1,34 mEq/mL
100 mg/mL · 10 mL = 13,4 mEq
KCl 19,1%
2,56 mEq/mL
191 mg/mL · 10 mL = 25,6 mEq
KCl 20%
2,68 mEq/mL
200 mg/mL · 10 mL = 26,8 mEq
Concentração Sérica de K⁺Dose de Potássio SugeridaK⁺ Adicionado ao Cristaloide Isotônico
60 mL/kg/dia para cão de 10 kg (25 mL/h)
< 2,0 mEq/L0,5 mEq/kg/h200 mEq/L
2,0–2,5 mEq/L0,3–0,4 mEq/kg/h120–160 mEq/L
2,6–3,0 mEq/L0,2–0,25 mEq/kg/h80–100 mEq/L
3,1–3,5 mEq/L0,1–0,15 mEq/kg/h40–60 mEq/L
> 3,5 mEq/L0,05 mEq/kg/h20 mEq/L
Atenção — Velocidade Máxima de Suplementação de Potássio
Limite absoluto universal: 0,5 mEq/kg/h. Nunca ultrapassar esta velocidade por nenhuma razão, em nenhuma faixa.
NUNCA administrar KCl em bolus IV direto. Pode causar parada cardíaca imediata por hipercalemia aguda.
07

Sobrecarga de Fluidos — Prevenção e Reconhecimento

Complicação iatrogênica frequentemente subestimada

Pontos Essenciais

Primum non nocere. A sobrecarga é potencialmente fatal e não tem tratamento universalmente eficaz. Prevenção é a melhor estratégia.
Administração excessiva iatrogênica é a causa mais comum. Aumento de 10% do peso corporal é sinal de alerta — pesar a cada 6–12 h.
Pacientes com doença renal são os mais vulneráveis — rins incapazes de excretar o excesso de fluido.

🔴 Sinais Clínicos

👁️Edema de membros, pálpebras e região intermandibular
👃Descarga nasal serosa (edema nasal)
🫁Estertores pulmonares, ↑ FR, ↓ SpO₂
💓Novo sopro ou ritmo de galope (especialmente em gatos)

✅ Como Prevenir

⚖️Pesar a cada 6–12 h e registrar o balanço hídrico
💊Incluir fluidos de medicações, flushes e nutrição no cálculo
📊Individualizar — nunca usar taxa padrão para todos
🩺Monitorar via ultrassom (linha B pulmonar, veia cava caudal)
Mito ComumRealidade
Fluidos IV aumentam a TFG em normovolêmicosNão aumentam a TFG em pacientes hidratados e euvolêmicos
Hipertensão indica hipervolemiaHipertensão raramente está associada à sobrecarga (exceto em doença renal)
Se hipotensão, continuar bolus até melhorarAlguns não respondem a fluidos. Sem resposta: parar e considerar vasopressores
Hemodiálise resolve o edemaA migração do fluido de edema para o espaço vascular é limitada

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Fonte: 2024 AAHA Fluid Therapy Guidelines for Dogs and Cats

Pardo M, Spencer E, Odunayo A, et al. · J Am Anim Hosp Assoc 2024; 60:131–163

Material educacional para fins didáticos. Consulte o artigo original para informações completas, tabelas e referências.

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